O CONTATO E A MUDANÇA DO POVO IKPENG PARA O XINGU

Em 1952, os irmãos Villas-Bôas fizeram uma primeira tentativa de contato conosco. Acompanhados de dois índios Juruna entraram de surpresa na nossa aldeia, provocando grande agitação e confusão, mas tiveram de se retirar de imediato, temendo ser mortos. Naquela época eles nos chamavam de Txicão.

Orlando e Cláudio Villas-Bôas começaram então a sobrevoar de avião nossas aldeias e de lá jogavam presentes para nós. Demos o nome de ïrïnkeni. àquele estranho pássaro barulhento. No primeiro sobrevoo jogaram do avião um saco de rapadura, que ao cair e se espatifar no chão, achamos que era o cocô dele. Só os pajés mexiam naquilo. Depois descobrimos que era rapadura. No terceiro voo os Ikpeng se acostumaram e perderam o medo do avião. Flechavam o avião e os Villas Bôas soltavam presentes. Para nosso povo, essa flechada no avião era um pedido de presente. Até que em 1964 pousaram num campo perto da aldeia. Os Ikpeng se aproximaram e trocaram facão por flecha, caldeirão por cocar e outras coisas como garrafas, fósforos, anzóis, bonequinhas...

Em 1966 fomos transferidos de balsa pelos Villas-Bôas, de nossa Terra, às margens do rio Roro Walu (Jatobá) , para o Posto Leonardo, dentro do Parque Indígena do Xingu. Fomos recebidos por centenas de alto-xinguanos, nessa época não éramos mais que 56 indivíduos entre adultos e crianças. Foi um tempo difícil, porque passamos a conviver com os povos com os quais guerreávamos antigamente e dependíamos, no início, do auxílio de outras tribos para nos alimentar porque não conhecíamos aquele lugar.

Pouco depois nos estabelecemos nas proximidades do Posto Leonardo, quando passamos a receber apoio mais direto do administrador do Parque, e daí então abrimos nossas roças. Embora tendo esse apoio, levávamos muita pressão dos moradores deste local, o que motivou a nossa mudança para o médio Xingu, mais ao norte, onde é hoje o Posto Indígena Pavuru. Isso aconteceu em meados da década de 70.

Hoje nossa população é de 432 pessoas distribuídas entre o Posto Indígena Pavuru e duas aldeias: Moygu, a principal e mais populosa, e Tupara que fica localizada na margem esquerda do Rapyo Akpo (rio Ronuro)

Foto: Eduardo Galvão