MOPA AMENJO | RAMOS PARA FLAUTA

Vamos falar sobre o respeito da sociedade Ikpeng por um ser vivo que é o espírito do buriti. Quando um flautista vai cortar um ramo do buriti para fazer flauta, ele tem o jeito de manejar aquela planta e só ele sabe como conversar com a planta. Na verdade, ele conversa com o espírito dela, pedindo para o espírito não fazer mal para os meninos que vão fazer tatuagem e que o espírito da planta dê mais força para os meninos. Isso ele fala antes de cortar os ramos e depois ele tenta cortar. Se o espírito quer compartilhar sua energia, ele deixa cortar. Quando o flautista for cortar e o ramo cair reto, a pessoa fica contente. Se o espírito não quer compartilhar sua energia, quando o flautista cortar, o ramo não cai, fica preso no outro ramo.

Então ele deixa, vai procurar outra planta e corta. Quando a pessoa chega na aldeia, dança com os ramos no ombro para alegrar o espírito. Depois disso ele leva ao rio. O flautista faz a flauta no lugar que não é muito freqüentado pelas crianças, porque ele precisa concentrar o próprio espírito no espírito da flauta. Só quem quiser aprender como fazer flauta pode acompanhar este trabalho.

Quando uma pessoa tem filho pequeno não pode cortar e nem fazer flauta, senão faz mal para a criança, também não pode tocar. Quando a flauta está sendo usada tem que cuidar muito bem dela, não deixar cair e quebrar. Se por acaso deixar cair e quebrar, o espírito da flauta pode fazer mal para alguns meninos que vão fazer tatuagem.

Quando a flauta fica velha, que não dá mais para usar, o flautista a leva ao rio, no lugar onde ninguém pode vê-la. Ele a amarra numa árvore, no fundo da água e despede-se da flauta dizendo: - Você foi uma boa colega.

Na verdade ele fala com o espírito dela. Por isso que a sociedade Ikpeng tem muito respeito pela flauta e pelo buriti. O buriti é um recurso natural que também serve para fazer muitas coisas: rede, ralador, peneira, alimento, balaio, cesto para carregar mandioca, palha para construir casa, a palha bruta para festa. As palmeiras secas servem ainda para a reprodução de várias aves.

Korotowï, Maiua e Iokore Ikpeng

Desenhos: Maiua Ikpeng